
11.3.10
Massacre de cristãos na Nigéria: Casualidades religiosas...

Do estado...
5.3.10
Grafitagem, Gambah...
"Eu sei, mas não devia..." Marina Colasanti
2.3.10
A Marcha de Ataque ao Coração...
15.2.10
"As Prisões..." [por Mauricio Tragtenberg]
Numa conferência realizada em Paris em 1887, Kropotkin aborda um dos temas centrais da sociedade atual que, depois das questões econômica e política, é a mais importante: a questão judicialA pergunta a que ele pretende responder é: o que se deve fazer com aqueles que cometem atos anti-sociais? Condenação à morte, trabalhos forçados, prisão perpétua? A máquina judicial povoa as prisões.
No entanto – e aqui os dados de Kropotkin são do século passado [XIX], cuja semelhança com os atuais [XX] é chocante – a única certeza que a administração carcerária tem é a da reincidência no crime, pois o aumento ou a diminuição da pena não contribuem para que os índices de criminalidade decresçam.
É a partir dessa constatação que Kropotkin argumenta que nada pode ser reformado no sistema penitenciario: a prisão, ao tirar a liberdade do homem e matar a sociabilidade que o capacita a viver em sociedade, só faz fabricar o criminoso reincidente.
A pretexto de “reeducar” o criminoso, o regime carcerário de fato degrada, de várias formas, o prisioneiro. Também não se trata de vigiar os guardas ou escolher para diretores dos presídios pessoas realmentes “sérias”, pois o universo da prisão também é uma espécie de sentença para esses indivíduos.
Como as prisões demonstraram serem incapazes de resolver o problema dos crimes, para Kropotkin cabe sim buscar suas causas, e elas são de responsabilidade social: a miséria, odesemprego, a desorganização familiar. O capitalismo, que cultiva o desprezo ao trabalho manual e cultua o deus-capital, cria personalidades anti-sociais, pessoas que querem viver às custas de outras que as mantenham. Os criminosos “bem-sucedidos” são glorificados. Os que “fracassam” na “carreira” é que serão trancafiados nas prisões.
Não é à toa que a maioria dos crimes, nesta sociedade fundada na propriedade dos bens por poucos e na expropriação de muitos, são contra a propriedade.
A minoria deles, que atigem a pessoa humana enquanto indivíduo, com o desenvolvimento de relações sociais fundadas na cooperação, apoio mútuo e respeito ao próximo tenderão fatalmente a decair e até mesmo a desaparecer.
As instituições presidiárias representam apenas uma solução de compromisso entre a nossão bíblica de vingança, do Velho Testamento, a noção medieval de existência de uma vontade diabólica geradora do crime e a noção moderna de evitar o crime pelo castigo. Esse termo aparece transfigurado como “reeducação” ou “reintegração”, alteração filológica e não filosófica.
A pena de morte, por sua vez, é apontada por alguns como solução para a reincidência criminosa de pessoas que cometeram homicídio ou atentaram contra a propriedade privada. No entanto, quando a pena de morte, na sociedade capitalista atingiu um banqueiro, um industrial ou um financista?
Para Kropotkin, nem as prisões nem a pena de morte – um assassinato legal – diminuíram o número de crimes. Para ele, só o apoio humano fraterno àqueles que, por motivos os mais variados, venham a passar por um processo de desestruturação situacional, só a liberdade para que o indivíduo possa demonstrar suas potencialidades, criatividade e humanidade são remédios contra o crime.
Num mundo como o capitalista, governado pela mercadoria, onde não só o trabalho é uma delas, mas a própria personalidade humana se converte numa mercadoria, esses remédios são esmagados.
Caso haja no contingente de presidiários aqueles que possuem problemas psíquicos, nada mais certo que receberem atenção adequada dos especialistas e atenção solidária da comunidade.
Uma sociedade livre não necessita de depósitos de seres humanos segregados. A segregação é o grande crime contra a pessoa, a fonte de todas as perversões, delinqüências e deformações psíquicas.
Não é por acaso que os hospitais psiquiátricos tradicionais, que os colégios internos, conventos e prisões fechadas são incompatíveis com uma sociedade igualitária e libertária.
In:
Texto copilado da "apresentação" ao livro KROPOTKIN (textos escolhidos); Biblioteca Anarquista; Seleção de Maurício Tragtenberg; L&PM Editores; 1987.
Nosso papel no transe haitiano...
Se verdadeiramente queremos ajudar a este país devastado, devemos cessar com as intenções de controlá-lo e explorá-lo. Qualquer grande cidade do mundo haveria sofrido danos consideráveis por um terremoto como o que assolou a capital haitiana na tarde de terça, porém não é nenhum acidente que boa parte da cidade de Porto Príncipe pareça agora uma zona de guerra. Grande parte da devastação causada pelas mais recentes e desastrosas calamidades, que golpearam o Haiti se compreende como resultado de uma grande e infame seqüência de acontecimentos históricos causados pelo homem.
O país já enfrentou mais catástrofes do que, para ser justo, lhe corresponderiam. Centenas de pessoas morreram em Porto Príncipe por um terremoto em junho de 1770, e o gigantesco terremoto de 7 de maio de 1842 matou 10.000 pessoas, somente na cidade ao norte de Cabo Haitiano. Os furações golpeiam a ilha com regularidade, os mais recentes, em 2004 e 2008; as tormentas do ano de 2008 inundaram a cidade de Gonaives e destruíram a maior parte de sua frágil infraestrutura, matando mais de mil pessoas e destruindo milhares de habitações. A extensão deste atual desastre pode se manter desconhecida por várias semanas, inclusive reparações mínimas podem tardar anos para se efetivarem e o impacto a longo prazo é incalculável.
Sem dúvida, o que já está bastante claro é que este impacto será resultado de um processo histórico ainda maior de debilidade e empobrecimento deliberado. Haiti é descrito, rotineiramente, como “o país mais pobre do hemisfério ocidental". Esta pobreza é o legado direto de que talvez haja sido o sistema de exploração colonial mais brutal da história, agravado por décadas de sistemática opressão pós-colonial.
A nobre “comunidade internacional" que, nestes momentos, se prepara, com grande estrondo, para enviar sua "ajuda humanitária" ao Haiti é, em grande parte, responsável pela extensão do sofrimento que agora quer aliviar. Desde a invasão e ocupação norte americana de 1925, cada tentativa política, de permitir que o povo haitiano pudesse passar (na frase do anterior presidente Aristide) “da miséria absoluta à pobreza digna", tem sido bloqueada, deliberada e violentamente, pelo governo dos Estados Unidos e alguns de seus aliados.
O próprio governo de Aristide (eleito aproximadamente por 75% do eleitorado) foi a última vítima desta ingerência a ser derrotada em 2004 por um golpe patrocinado internacionalmente no ano de 2004, que matou milhares de pessoas e deixou uma grande parte do pais carregada de ressentimentos. A ONU se manteve no país, deste então, com uma enorme e muito onerosa força militar de pacificação.
Haiti é, hoje, um país onde, segundo o melhor estudo disponível, certa de 75% da população ' vivem com menos de 2 dólares ao dia e 56% - quatro milhões e meio de pessoas - vivem com menos de um dólar diário". Décadas de “ajustes" neoliberais e intervenções neoimperiais têm despojado o país de qualquer porção significativa de capacidade para intervir em seu podo ou regular sua economia. Condições punitivas de comercio e financiamento internacional garantem a permanência, em um futuro previsível, desta indigência e impotência como fatos estruturais da vida haitiana.
É exatamente esta pobreza e impotência que explicam a extensão do atual horror em Porto Príncipe. Desde os últimos anos da década de 70, um implacável assalto neoliberal à economia agrária do Haiti tem obrigado milhares de pequenos agricultores a morar em habitações informais e deficientes, cravadas em barrancos desflorestados. A seleção de pessoas que vivem em tais lugares não é , em si mesma, mais ' natural' ou acidental do que a extensão das feridas que tenham sofrido.
Como indica Brian Concannon, diretor do Instituto pela Justiça e Democracia do Haiti, “esta gente chegou a estes lugares, porque eles, ou seus pais, foram expulsos, intencionalmente, das áreas rurais por políticas de ajuda e de comercio desenhadas, especificamente, com a intenção de criar, nas cidades, uma força de trabalho cativa, e, portanto, fácil de explorar; por definição se trata de gente que não conta com meios para construir casas resistentes aos terremotos”. Entretanto, a infraestrutura básica da cidade - água corrente, eletricidade, ônibus, etc - permanece deploravelmente inadequada, minimamente inexistente. A capacidade do governo para mobilizar qualquer tipo de ajuda contra catástrofes é praticamente nula.
A comunidade internacional tem governado efetivamente Haiti, desde o golpe de 2004. Os mesmos países, que agora alardeiam com o envio de ajuda de emergência ao Haiti, votaram, sem dúvida, consistentemente, durante os últimos cinco anos, contra qualquer extensão do mandato da missão da ONU, para além de seus objetivos estritamente militares. Propostas para desviar parte destas “inversões" para programas de redução da pobreza ou o desenvolvimento agrário foram bloqueadas, de acordo com as pautas de longo prazo que seguem caracterizando ' ajuda ' internacional.
As mesmas tormentas que mataram tanta gente no Haiti, em 2008, golpearam Cuba com a mesma força, porém deixando apenas 4 mortos. Cuba tem se referido aos piores efeitos das “reformas” neoliberais e seu governo conserva a capacidade de defender seu povo contra os desastres naturais. Se quisermos, seriamente, ajudar o Haiti a sair de sua última crise, deveríamos considerar estes resultados. Juntamente com o envio de ajuda de emergência, deveríamos nos perguntar sobre o que podemos fazer para favorecer o fortalecimento e autodeterminação do povo de Haiti e suas instituições públicas. Se queremos seriamente ajudar, temos que deixar de tentar controlar o governo haitiano, pacificar seus cidadãos e explorar sua economia. E logo, tenderemos que começar a pagar, ao menos uma parte, a destruição que temos causado.
28.1.10
Aos 70 anos de idade, nas chuvas de Janeiro de 2010...

20.1.10
Estamos Abandonados...(Haiti)
| Otávio Calegari Jorge - 13 de janeiro de 2010 |
A noite de ontem foi a coisa mais extraordinária de minha vida. Deitado do lado de fora da casa onde estamos hospedados, ao som das cantorias religiosas que tomaram lugar nas ruas ao redor e banhado por um estrelado e maravilhoso céu caribenho, imagens iam e vinham. No entanto, não escrevo este pequeno texto para alimentar a avidez sádica de um mundo já farto de imagens de sofrimento. O que presenciamos ontem no Haiti foi muito mais do que um forte terremoto. Foi a destruição do centro de um país sempre renegado pelo mundo. Foi o resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira república negra do mundo. Os haitianos pagam diariamente por esta ousadia. O que o Brasil e a ONU fizeram em seis anos de ocupação no Haiti? As casas feitas de areia, a falta de hospitais, a falta de escolas, o lixo. Alguns desses problemas foram resolvidos com a presença de milhares de militares de todo mundo? A ONU gasta meio bilhão de dólares por ano para fazer do Haiti um teste de guerra. Ontem pela manhã estivemos no BRABATT, o principal Batalhão Brasileiro da Minustah. Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país. Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela? Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros. Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah. A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados. A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade. Me incomoda a ânsia por tragédias da mídia brasileira e internacional. Acho louvável a postura de nossa fotógrafa de não sair às ruas de Porto Príncipe para fotografar coisas destruídas e pessoas mortas. Acredito que nenhum de nós gostaria de compartilhar, um pouco que seja, o que passamos ontem. Infelizmente precisamos de mais uma calamidade para notarmos a existência do Haiti. Para nós, que estamos aqui, a ligação com esse povo e esse país será agora ainda mais difícil de ser quebrada. Espero que todos os que estão acompanhando o desenrolar desta tragédia também se atentem, antes tarde do que nunca, para este pequeno povo nesta pequena metade de ilha que deu a luz a uma criatividade, uma vontade de viver e uma luta tão invejáveis. Otávio Calegari Jorge faz parte de um grupo de pesquisa da Unicamp presente no Haiti e militante do PSTU. Texto publicado no blog do grupo: http://lacitadelle.wordpress. |
14.1.10
Terça-Feira, 13 de Janeiro de 2010, Haiti...
Os que estavam com suas famílias...
As vítimas de guerrilhas fratricidas, atentas ao pavor
que aperta de mais um lado agora...
duma ameaça bíblica que diz que
"... dos que não têm
até o pouco que têm lhes será tirado..." ('fé'?)
mas que ainda sendo pouco, traz alguma sensação de esperança...
Os que não hesitariam, hoje sob escombros, em enviar tanta ajuda quanto possível se a tragédia fosse acontecida com um outro povo,Não importando se quatro quintos de sua população vive abaixo da linha da pobreza...
seus queridos estejam vivos sob o entulho e o desastre...
acompanhados de escombros e de corpos...
ao som da sinfonia de rezas, choro, cânticos religiosos, fraturas expostas,
traumatismos infecções, zunido de máquinas, remoção de destroços,
euforia de saques, contenção militar e poeira...
Não há nada que uma postagem pobre como essa
possa fazer por eles, mesmo que não anseie causar comoção...
que os conforte, em seus dias de tragédia e corpos putrefando ao lado de seus leitos...
feridas, sangrando, das tentativas de retirar escombros de cima dos seus, com as mãos nuas...
mas em suas, os líquidos das centenas de milhares de vítimas já ganham caminho...
anseia e se aperta por eles, como se fosse bem aqui conosco
pode soar até hipócrita e ofensivo...
pelo espírito livre a qualquer custo, vencedor a qualquer custo...
Sob qualquer condição...
À ocupação americana de Woodrow Wilson...
sob tutela brasileira...
Três dias antes do terremoto de 13 de Janeiro, a escola La Promesse em Pétionville, periferia leste de Porto Príncipe, desabou.
A construção, feita sem qualquer tipo de autorização técnica ou norma de construção, foi obra do pastor protestante Fortin Augustin,
que não possuía antecedentes e já se entregou à polícia...
700 pessoas estavam no colégio, no momento...
150 feridos...
93 mortos...
13.1.10
Plano Nacional de Direitos Humanos e as brasas que se apagaram uma outra vez...
Não foram recebidos com euforia os 521 pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos(PNDH), lançada em fins de dezembro passado (23 de dezembro, 2009). Uma meia dúzia de (milhões de) pobres aqui, uma meia dúzia de (parasitas históricos) ricos ali, a imprensa dando muito mais atenção as reivindicação de setores “ofendidos” (bons pagantes, anunciantes, investidores, gente fardada...) ... Só...Em janeiro de 2010 já se anunciava a décima edição de “Big Brother Brasil”... “A fazenda” seguia sua segunda edição com centenas de milhares de ligações votando quem permaneceria e quem sairia da “clausura”... A um contingente enorme viciado nesse prazer rápido e pouco comprometido, coisas assim, como o PNDH aparece muito “sem sabor”, pouco chamativo... Mesmo dos setores e sub-setores alternativos não se obteve muita atenção ao fato... E por fim, nessa altura do campeonato, o presidente já deixava esclarecido que retrocederia em tantos e tantos pontos... Estivemos cara a cara com a chance de realização de dezenas de reivindicações de longa data... Vislumbramos... Nossos corações puderam estar em brasa viva uma vez mais... E tudo se foi.
A senadora Kátia Abreu , em entrevista ao sitio “UOL Notícias”, se demonstrou descontente e pertencente a uma classe discriminada nestas emendas propostas... (Bem, realmente, são poucos os que têm tanto dinheiro assim, uma “minoria” talvez eles sejam mesmo...!)... O que não vai muito além de uma apropriação de discurso. Numa terra sofrida igual ao Brasil, o “coitadismo” tem preferência na fila...
A senadora Kátia Abreu não concorda que para as áreas ocupadas, por exemplo pelo MST – e que ela insistentemente trata por “invadidas” - tenha seu destino decidido através duma audiência pública, que envolva os dois lados: os trabalhadores e trabalhadoras (que efetivamente merecem seu lugar para viver e de fato ser), e os verdadeiros invasores (usurpadores antigos, criminosos legalizados pelo poder aquisitivo), os latifundiários... Segundo ela, isso é uma corroboração com o “crime”...
A senadora Kátia Abreu considera “Ideológico” o Programa Nacional de Direitos Humanos... Ela o considera desrespeitoso. O deputado estadual Zé Teixeira (DEMoníacos, MS) também considera assim. Ele é agropecuarista.
A senadora Kátia Abreu é a presidente da Confederação Nacional dos Agricultores. E essa informação deve bastar para sabermos seus motivos sinceros e seu ímpeto nesse embate.
Pequenos agricultores, famílias inseridas no campesinato, pequenos produtores, trabalhadores rurais... Eles não importam, todos estes tantos e tantos sob o malefício do carrasco legalizado instituído do agronegócio. Só o verdadeiro setor a que pertence essa senhora senadora Kátia Abreu importa a ela agora, e isso, escondido sob o manto da defesa dos direitos do povo... Isso faz seu coração arder...
A população não foi chamada a decidir essa questão.
“jamais poderia” é a objeção primeira. ..
“Não tem condições de julgar de modo imparcial a uma questão de tanta magnitude”...
“Há pessoas capacitadas e instituídas para realizar esta tarefa”...
Coisas desse tipo invadem a cabeça tanto de quem de fato legisla, quanto de quem é legislado. Contudo, essas questões, uma a uma, poderiam – e deveriam, penso – ser passadas a padrões simples de comunicação, em linguagem simplificada, e uma meia dúzia de cabeças brancas não deveriam decidir o que seria melhor a tanta gente. Quer padeça, quer folgue, que toda a nação o faça por seu próprio mérito. Daí, teríamos o Sufrágio Universal por direito. Seríamos apresentados à democracia de fato.
São os nossos direitos. Nos dizem respeito. Que a decisão seja coletiva e que sejam nossas as escolhas por nós e para nós mesmos. Nossos interesses não são os dos latifundiários, agropecuaristas, dos interventores religiosos, dos militares que publicamente se amedrontam sobre remoerem seu passado...
Que os direitos humanos nos sejam mais caros do que os de consumidor e que nosso coração arda em brasa viva ao menos uma vez mais...
[Uma vaga opinião de] Augusto Miranda
...
O Último Discurso...
Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança.
7.1.10
O Gulag e a garotinha
“Vera, pequena prisioneira de um dos muitos campos para crianças, quando colocada diante do desenho de uma casa não soube dizer o que era aquilo. Anastas, um pouco maior que ela, respondeu rápido: um alojamento. Diante de um gato rabiscado sobre o papel os dois ficaram mudos: nunca haviam visto o bicho. Vera se alegrou quando conseguiu finalmente dar o nome para algo que reconhecia cotidiano e nítido. diante do desneho de cruzes de arame farpado dispostas em um círculo, a menina gritou encantada por seu acerto: a zona prisional.”[Professora Salete Oliveira, do Departamento de política da USP, na matéria "Mulheres na Revolução Russa"]
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