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15.2.10

"As Prisões..." [por Mauricio Tragtenberg]

Numa conferência realizada em Paris em 1887, Kropotkin aborda um dos temas centrais da sociedade atual que, depois das questões econômica e política, é a mais importante: a questão judicial
A pergunta a que ele pretende responder é: o que se deve fazer com aqueles que cometem atos anti-sociais? Condenação à morte, trabalhos forçados, prisão perpétua? A máquina judicial povoa as prisões.

No entanto – e aqui os dados de Kropotkin são do século passado [XIX], cuja semelhança com os atuais [XX] é chocante – a única certeza que a administração carcerária tem é a da reincidência no crime, pois o aumento ou a diminuição da pena não contribuem para que os índices de criminalidade decresçam.


É a partir dessa constatação que Kropotkin argumenta que nada pode ser reformado no sistema penitenciario: a prisão, ao tirar a liberdade do homem e matar a sociabilidade que o capacita a viver em sociedade, só faz fabricar o criminoso reincidente.


A pretexto de “reeducar” o criminoso, o regime carcerário de fato degrada, de várias formas, o prisioneiro. Também não se trata de vigiar os guardas ou escolher para diretores dos presídios pessoas realmentes “sérias”, pois o universo da prisão também é uma espécie de sentença para esses indivíduos.


Como as prisões demonstraram serem incapazes de resolver o problema dos crimes, para Kropotkin cabe sim buscar suas causas, e elas são de responsabilidade social: a miséria, odesemprego, a desorganização familiar. O capitalismo, que cultiva o desprezo ao trabalho manual e cultua o deus-capital, cria personalidades anti-sociais, pessoas que querem viver às custas de outras que as mantenham. Os criminosos “bem-sucedidos” são glorificados. Os que “fracassam” na “carreira” é que serão trancafiados nas prisões.
Não é à toa que a maioria dos crimes, nesta sociedade fundada na propriedade dos bens por poucos e na expropriação de muitos, são contra a propriedade.



A minoria deles, que atigem a pessoa humana enquanto indivíduo, com o desenvolvimento de relações sociais fundadas na cooperação, apoio mútuo e respeito ao próximo tenderão fatalmente a decair e até mesmo a desaparecer.



As instituições presidiárias representam apenas uma solução de compromisso entre a nossão bíblica de vingança, do Velho Testamento, a noção medieval de existência de uma vontade diabólica geradora do crime e a noção moderna de evitar o crime pelo castigo. Esse termo aparece transfigurado como “reeducação” ou “reintegração”, alteração filológica e não filosófica.



A pena de morte, por sua vez, é apontada por alguns como solução para a reincidência criminosa de pessoas que cometeram homicídio ou atentaram contra a propriedade privada. No entanto, quando a pena de morte, na sociedade capitalista atingiu um banqueiro, um industrial ou um financista?



Assim como o hospital psiquiátrico é um depósito de pobres, o presídio também o é. Sua função, muito longe de ser a de “reintegrar”, é a de estigmatizar. Para que tanto trabalho e custos para apenas garantir a boa consciência das várias frações da classe dominante? Do mesmo modo que a prostituição é a condição do casamento monogâmico, a existência do estigma criminal é a condição da boa consciência da burguesia e da pequena burguesia das grandes cidades.


Para Kropotkin, nem as prisões nem a pena de morte – um assassinato legal – diminuíram o número de crimes. Para ele, só o apoio humano fraterno àqueles que, por motivos os mais variados, venham a passar por um processo de desestruturação situacional, só a liberdade para que o indivíduo possa demonstrar suas potencialidades, criatividade e humanidade são remédios contra o crime.



Num mundo como o capitalista, governado pela mercadoria, onde não só o trabalho é uma delas, mas a própria personalidade humana se converte numa mercadoria, esses remédios são esmagados.
Caso haja no contingente de presidiários aqueles que possuem problemas psíquicos, nada mais certo que receberem atenção adequada dos especialistas e atenção solidária da comunidade.


Uma sociedade livre não necessita de depósitos de seres humanos segregados. A segregação é o grande crime contra a pessoa, a fonte de todas as perversões, delinqüências e deformações psíquicas.
Não é por acaso que os hospitais psiquiátricos tradicionais, que os colégios internos, conventos e prisões fechadas são incompatíveis com uma sociedade igualitária e libertária.



Infelizmente, constituem o cartão de visita de sociedades fundadas na exploração e na opressão do homem pelo homem.


In:
Texto copilado da "apresentação" ao livro KROPOTKIN (textos escolhidos); Biblioteca Anarquista; Seleção de Maurício Tragtenberg; L&PM Editores; 1987.

Nosso papel no transe haitiano...

por Peter Hallward, The Guardian - 15 de janeiro de 2010
Se verdadeiramente queremos ajudar a este país devastado, devemos cessar com as intenções de controlá-lo e explorá-lo.

Qualquer grande cidade do mundo haveria sofrido danos consideráveis por um terremoto como o que assolou a capital haitiana na tarde de terça, porém não é nenhum acidente que boa parte da cidade de Porto Príncipe pareça agora uma zona de guerra. Grande parte da devastação causada pelas mais recentes e desastrosas calamidades, que golpearam o Haiti se compreende como resultado de uma grande e infame seqüência de acontecimentos históricos causados pelo homem.

O país já enfrentou mais catástrofes do que, para ser justo, lhe corresponderiam. Centenas de pessoas morreram em Porto Príncipe por um terremoto em junho de 1770, e o gigantesco terremoto de 7 de maio de 1842 matou 10.000 pessoas, somente na cidade ao norte de Cabo Haitiano. Os furações golpeiam a ilha com regularidade, os mais recentes, em 2004 e 2008; as tormentas do ano de 2008 inundaram a cidade de Gonaives e destruíram a maior parte de sua frágil infraestrutura, matando mais de mil pessoas e destruindo milhares de habitações. A extensão deste atual desastre pode se manter desconhecida por várias semanas, inclusive reparações mínimas podem tardar anos para se efetivarem e o impacto a longo prazo é incalculável.

Sem dúvida, o que já está bastante claro é que este impacto será resultado de um processo histórico ainda maior de debilidade e empobrecimento deliberado. Haiti é descrito, rotineiramente, como “o país mais pobre do hemisfério ocidental". Esta pobreza é o legado direto de que talvez haja sido o sistema de exploração colonial mais brutal da história, agravado por décadas de sistemática opressão pós-colonial.

A nobre “comunidade internacional" que, nestes momentos, se prepara, com grande estrondo, para enviar sua "ajuda humanitária" ao Haiti é, em grande parte, responsável pela extensão do sofrimento que agora quer aliviar. Desde a invasão e ocupação norte americana de 1925, cada tentativa política, de permitir que o povo haitiano pudesse passar (na frase do anterior presidente Aristide) “da miséria absoluta à pobreza digna", tem sido bloqueada, deliberada e violentamente, pelo governo dos Estados Unidos e alguns de seus aliados.

O próprio governo de Aristide (eleito aproximadamente por 75% do eleitorado) foi a última vítima desta ingerência a ser derrotada em 2004 por um golpe patrocinado internacionalmente no ano de 2004, que matou milhares de pessoas e deixou uma grande parte do pais carregada de ressentimentos. A ONU se manteve no país, deste então, com uma enorme e muito onerosa força militar de pacificação.

Haiti é, hoje, um país onde, segundo o melhor estudo disponível, certa de 75% da população ' vivem com menos de 2 dólares ao dia e 56% - quatro milhões e meio de pessoas - vivem com menos de um dólar diário". Décadas de “ajustes" neoliberais e intervenções neoimperiais têm despojado o país de qualquer porção significativa de capacidade para intervir em seu podo ou regular sua economia. Condições punitivas de comercio e financiamento internacional garantem a permanência, em um futuro previsível, desta indigência e impotência como fatos estruturais da vida haitiana.

É exatamente esta pobreza e impotência que explicam a extensão do atual horror em Porto Príncipe. Desde os últimos anos da década de 70, um implacável assalto neoliberal à economia agrária do Haiti tem obrigado milhares de pequenos agricultores a morar em habitações informais e deficientes, cravadas em barrancos desflorestados. A seleção de pessoas que vivem em tais lugares não é , em si mesma, mais ' natural' ou acidental do que a extensão das feridas que tenham sofrido.

Como indica Brian Concannon, diretor do Instituto pela Justiça e Democracia do Haiti, “esta gente chegou a estes lugares, porque eles, ou seus pais, foram expulsos, intencionalmente, das áreas rurais por políticas de ajuda e de comercio desenhadas, especificamente, com a intenção de criar, nas cidades, uma força de trabalho cativa, e, portanto, fácil de explorar; por definição se trata de gente que não conta com meios para construir casas resistentes aos terremotos”. Entretanto, a infraestrutura básica da cidade - água corrente, eletricidade, ônibus, etc - permanece deploravelmente inadequada, minimamente inexistente. A capacidade do governo para mobilizar qualquer tipo de ajuda contra catástrofes é praticamente nula.

A comunidade internacional tem governado efetivamente Haiti, desde o golpe de 2004. Os mesmos países, que agora alardeiam com o envio de ajuda de emergência ao Haiti, votaram, sem dúvida, consistentemente, durante os últimos cinco anos, contra qualquer extensão do mandato da missão da ONU, para além de seus objetivos estritamente militares. Propostas para desviar parte destas “inversões" para programas de redução da pobreza ou o desenvolvimento agrário foram bloqueadas, de acordo com as pautas de longo prazo que seguem caracterizando ' ajuda ' internacional.

As mesmas tormentas que mataram tanta gente no Haiti, em 2008, golpearam Cuba com a mesma força, porém deixando apenas 4 mortos. Cuba tem se referido aos piores efeitos das “reformas” neoliberais e seu governo conserva a capacidade de defender seu povo contra os desastres naturais. Se quisermos, seriamente, ajudar o Haiti a sair de sua última crise, deveríamos considerar estes resultados. Juntamente com o envio de ajuda de emergência, deveríamos nos perguntar sobre o que podemos fazer para favorecer o fortalecimento e autodeterminação do povo de Haiti e suas instituições públicas. Se queremos seriamente ajudar, temos que deixar de tentar controlar o governo haitiano, pacificar seus cidadãos e explorar sua economia. E logo, tenderemos que começar a pagar, ao menos uma parte, a destruição que temos causado.
. . .

28.1.10

Aos 70 anos de idade, nas chuvas de Janeiro de 2010...

À memória da senhora Dalva Teixeira Lima, deixamos nossas palavras, que não sei se homenageiam ou não, mas trazem à memória este instinto de sobrevivência e proteção que foi mostrado em seus últimos momentos, bem próximo de nós desta banda, aqui em Itapecerica da Serra, municipio da "grande" São Paulo...
(...)

Não há como saber quais eram os planos do futuro e do "acaso" para os dias da senhora Dalva, mas o caminho para os planos a respeito de seus netos, continua desobstruído ...
Por volta de 20h30 de 19 de janeiro, 2010, deixando esclarecido qual era sua prioridade, senhora Dalva cuidou que um deslizamento não acometesse seus três netos.. O mais velho, 13 anos de idade, cuidou de salvar aos outros dois, de 7 e 2 anos de idade...
(...)

À herança da Senhora Dalva, parabéns...
E, por favor, permaneçam...
Assim como foi com vocês, em muitos e muitos pontos neste extenso território, abandono, vulnerabilidade, susto e dor vão escrevendo cenas seguidas de cenas, numa tragédia sem um fim aparente e cujo ápice do pavor é mais sentido pelos nossos, os menos favorecidos...
(...)
Somente entre o início de dezembro de 2009 e fim de janeiro janeiro de 2010 foram quase SETENTA mortes pelas chuvas, o que é mais do que em todo este mesmo período de 2008 para 2009...

Estranho que convivamos natural e passivamente com uma estimativa desse porte, de algo que poderia ser evitado em sua grande maioria...


"...E vieram as chuvas de Janeiro, e te levaram de mim..."



...

20.1.10

Estamos Abandonados...(Haiti)

Otávio Calegari Jorge - 13 de janeiro de 2010

A noite de ontem foi a coisa mais extraordinária de minha vida. Deitado do lado de fora da casa onde estamos hospedados, ao som das cantorias religiosas que tomaram lugar nas ruas ao redor e banhado por um estrelado e maravilhoso céu caribenho, imagens iam e vinham. No entanto, não escrevo este pequeno texto para alimentar a avidez sádica de um mundo já farto de imagens de sofrimento.

O que presenciamos ontem no Haiti foi muito mais do que um forte terremoto. Foi a destruição do centro de um país sempre renegado pelo mundo. Foi o resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira república negra do mundo. Os haitianos pagam diariamente por esta ousadia.

O que o Brasil e a ONU fizeram em seis anos de ocupação no Haiti? As casas feitas de areia, a falta de hospitais, a falta de escolas, o lixo. Alguns desses problemas foram resolvidos com a presença de milhares de militares de todo mundo?

A ONU gasta meio bilhão de dólares por ano para fazer do Haiti um teste de guerra. Ontem pela manhã estivemos no BRABATT, o principal Batalhão Brasileiro da Minustah. Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país.

Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela?

Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros.

Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah.

A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados.

A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade.

Me incomoda a ânsia por tragédias da mídia brasileira e internacional. Acho louvável a postura de nossa fotógrafa de não sair às ruas de Porto Príncipe para fotografar coisas destruídas e pessoas mortas. Acredito que nenhum de nós gostaria de compartilhar, um pouco que seja, o que passamos ontem.

Infelizmente precisamos de mais uma calamidade para notarmos a existência do Haiti. Para nós, que estamos aqui, a ligação com esse povo e esse país será agora ainda mais difícil de ser quebrada.

Espero que todos os que estão acompanhando o desenrolar desta tragédia também se atentem, antes tarde do que nunca, para este pequeno povo nesta pequena metade de ilha que deu a luz a uma criatividade, uma vontade de viver e uma luta tão invejáveis.

Otávio Calegari Jorge faz parte de um grupo de pesquisa da Unicamp presente no Haiti e militante do PSTU.


Texto publicado no blog do grupo: http://lacitadelle.wordpress.com/

14.1.10

Terça-Feira, 13 de Janeiro de 2010, Haiti...


Os que estavam nas ruas..
Os que estavam em hospitais que desabaram...
Os que estavam com suas famílias...
As vítimas de guerrilhas fratricidas, atentas ao pavor
que aperta de mais um lado agora...

Os que vivenciaram essa ironia sádica e inoportuna
duma ameaça bíblica que diz que
"... dos que não têm
até o pouco que têm lhes será tirado..."
('fé'?)

Os que sabem que pouco, que efetivamente resolva, se pode esperar da Organização das Nações Unidas
mas que ainda sendo pouco, traz alguma sensação de esperança...


Os que não hesitariam, hoje sob escombros, em enviar tanta ajuda quanto possível se a tragédia fosse acontecida com um outro povo,
Não importando se quatro quintos de sua população vive abaixo da linha da pobreza...

Os que agora, mantêm as esperanças de que
seus queridos estejam vivos sob o entulho e o desastre...

Os que agora, passam as noites ao relento, temendo outro tremor,
acompanhados de escombros e de corpos...

E que convivem e vão conviver dias e dias a fio com o ambiente mefítico,
ao som da sinfonia de rezas, choro, cânticos religiosos, fraturas expostas,
traumatismos infecções, zunido de máquinas, remoção de destroços,
euforia de saques, contenção militar e poeira...

Não há nada que uma postagem pobre como essa
possa fazer por eles, mesmo que não anseie causar comoção...

Não há o que se diga daqui, da segurança de nossas paredes
que os conforte, em seus dias de tragédia e corpos putrefando ao lado de seus leitos...

Nem que restitua-os de suas perdas, nem ao menos algo que lhes conforte as mãos,
feridas, sangrando, das tentativas de retirar escombros de cima dos seus, com as mãos nuas...

Não temos as melhores, mais seguras e confortáveis ruas,
mas em suas, os líquidos das centenas de milhares de vítimas já ganham caminho...

Saberem ou não que nossos corações "daqui de baixo"
anseia e se aperta por eles, como se fosse bem aqui conosco
pode soar até hipócrita e ofensivo...

E no mais, o que fica são só nossos lamentos e uma admiração
pelo espírito livre a qualquer custo, vencedor a qualquer custo...

Sob qualquer condição...

Que a sua expectativa de vida média de 60 anos não diminua...

Não agora.

Não depois de terem sobrevivido à exploração espanhola e francesa...
À ocupação americana de Woodrow Wilson...
Papa Doc...

Baby Doc...

Jean Bertrand Aristide...

O mais baixo salário, a pior condição de vida de todo o continente americano...

Os furacões de 99...

Os furacões e tempestades de Agosto e Setembro de 2008...

A situação de guerra sob o manto do pacifismo mantida pelas tropas internacionais,
sob tutela brasileira...

Três dias antes do terremoto de 13 de Janeiro, a escola La Promesse em Pétionville, periferia leste de Porto Príncipe, desabou.
A construção, feita sem qualquer tipo de autorização técnica ou norma de construção, foi obra do pastor protestante Fortin Augustin,
que não possuía antecedentes e já se entregou à polícia...
700 pessoas estavam no colégio, no momento...
150 feridos...
93 mortos...

...

13.1.10

Plano Nacional de Direitos Humanos e as brasas que se apagaram uma outra vez...

Não foram recebidos com euforia os 521 pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos(PNDH), lançada em fins de dezembro passado (23 de dezembro, 2009). Uma meia dúzia de (milhões de) pobres aqui, uma meia dúzia de (parasitas históricos) ricos ali, a imprensa dando muito mais atenção as reivindicação de setores “ofendidos” (bons pagantes, anunciantes, investidores, gente fardada...) ... Só...

Em janeiro de 2010 já se anunciava a décima edição de “Big Brother Brasil”... “A fazenda” seguia sua segunda edição com centenas de milhares de ligações votando quem permaneceria e quem sairia da “clausura”... A um contingente enorme viciado nesse prazer rápido e pouco comprometido, coisas assim, como o PNDH aparece muito “sem sabor”, pouco chamativo... Mesmo dos setores e sub-setores alternativos não se obteve muita atenção ao fato... E por fim, nessa altura do campeonato, o presidente já deixava esclarecido que retrocederia em tantos e tantos pontos... Estivemos cara a cara com a chance de realização de dezenas de reivindicações de longa data... Vislumbramos... Nossos corações puderam estar em brasa viva uma vez mais... E tudo se foi.
Na quinta feira, 07 de Janeiro de 2010 a senadora Kátia Abreu, do (pseudo) Democratas de Tocantins, colocou seu busto ao vento contra a nova proposta de Direitos Humanos...

A senadora Kátia Abreu , em
entrevista ao sitio “UOL Notícias”, se demonstrou descontente e pertencente a uma classe discriminada nestas emendas propostas... (Bem, realmente, são poucos os que têm tanto dinheiro assim, uma “minoria” talvez eles sejam mesmo...!)... O que não vai muito além de uma apropriação de discurso. Numa terra sofrida igual ao Brasil, o “coitadismo” tem preferência na fila...

A senadora Kátia Abreu não concorda que para as áreas ocupadas, por exemplo pelo MST – e que ela insistentemente trata por “invadidas” - tenha seu destino decidido através duma audiência pública, que envolva os dois lados: os trabalhadores e trabalhadoras (que efetivamente merecem seu lugar para viver e de fato ser), e os verdadeiros invasores (usurpadores antigos, criminosos legalizados pelo poder aquisitivo), os latifundiários... Segundo ela, isso é uma corroboração com o “crime”...
A senadora Kátia Abreu deixa bem esclarecido que, ao menos no tocante à patota do monstruoso agronegócio, o presidente (é, ele mesmo, o manda-chuva da república...) não vai ter muita opção, senão tornar atrás...

A senadora Kátia Abreu considera “Ideológico” o Programa Nacional de Direitos Humanos... Ela o considera desrespeitoso. O
deputado estadual Zé Teixeira (DEMoníacos, MS) também considera assim. Ele é agropecuarista.

A senadora Kátia Abreu é a presidente da Confederação Nacional dos Agricultores. E essa informação deve bastar para sabermos seus motivos sinceros e seu ímpeto nesse embate.

Pequenos agricultores, famílias inseridas no campesinato, pequenos produtores, trabalhadores rurais... Eles não importam, todos estes tantos e tantos sob o malefício do carrasco legalizado instituído do agronegócio. Só o verdadeiro setor a que pertence essa senhora senadora Kátia Abreu importa a ela agora, e isso, escondido sob o manto da defesa dos direitos do povo... Isso faz seu coração arder...

A população não foi chamada a decidir essa questão.

“jamais poderia” é a objeção primeira. ..

“Não tem condições de julgar de modo imparcial a uma questão de tanta magnitude”...

“Há pessoas capacitadas e instituídas para realizar esta tarefa”...

Coisas desse tipo invadem a cabeça tanto de quem de fato legisla, quanto de quem é legislado. Contudo, essas questões, uma a uma, poderiam – e deveriam, penso – ser passadas a padrões simples de comunicação, em linguagem simplificada, e uma meia dúzia de cabeças brancas não deveriam decidir o que seria melhor a tanta gente. Quer padeça, quer folgue, que toda a nação o faça por seu próprio mérito. Daí, teríamos o Sufrágio Universal por direito. Seríamos apresentados à democracia de fato.

São os nossos direitos. Nos dizem respeito. Que a decisão seja coletiva e que sejam nossas as escolhas por nós e para nós mesmos. Nossos interesses não são os dos latifundiários, agropecuaristas, dos interventores religiosos, dos militares que publicamente se amedrontam sobre remoerem seu passado...

Que os direitos humanos nos sejam mais caros do que os de consumidor e que nosso coração arda em brasa viva ao menos uma vez mais...

[Uma vaga opinião de] Augusto Miranda



...

O Último Discurso...

“O Grande Ditador” [ Chaplin...]

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.




O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.


Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança.

Ergue os olhos, Hannah!



Ergue os olhos!

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7.1.10

O Gulag e a garotinha

Trecho extraído da edição de comemoração dos 90 anos da Revolução Russa,
da revista "História Viva" edição 18 [ Grandes Temas ]...
“Vera, pequena prisioneira de um dos muitos campos para crianças, quando colocada diante do desenho de uma casa não soube dizer o que era aquilo. Anastas, um pouco maior que ela, respondeu rápido: um alojamento. Diante de um gato rabiscado sobre o papel os dois ficaram mudos: nunca haviam visto o bicho. Vera se alegrou quando conseguiu finalmente dar o nome para algo que reconhecia cotidiano e nítido. diante do desneho de cruzes de arame farpado dispostas em um círculo, a menina gritou encantada por seu acerto: a zona prisional.”

[Professora Salete Oliveira, do Departamento de política da USP, na matéria "Mulheres na Revolução Russa"]

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2.1.10

30 de Julho, quatro anos atrás!

Bem legal termos encontrado esta foto do evento em que nos apresentamos pela primeira vez.
Foi o evento do "Cefam", o do dia 30 de Julho de 2006...
Na foto quem se apresenta é o "Boneca Costurada" (atividades encerradas...), tocou logo na sequencia da gente, que na época, ainda era o "Blandina"...
Neste Link, uma outra postagem sobre este mesmo evento...
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5.12.09

O Povo de Deus Volta a Atacar!

Sente esse diálogo:


[Telefona toca]



- Alô.
- Alô. Queria falar com a Dona “...[óbvio que vou preservar o nome]”
- É ela. Quem quer falar?
- Não posso falar meu nome. Tô te ligando pra avisar, acabei d ver seu filho com o namoradO dele na rua... Tô avisando porque sei que a senhora é temente a Deus...
- (um silêncio, por um momento)... É, mas eu não criei filho pra mim, criei pro mundo, né...
- Ué, mas eu pensei que a senhora fosse religiosa!
- Não, eu sou cristã, não religiosa.
- É, já não se fazem mais crentes como antigamente...


[fim do diálogo primoroso...]



A edificante conversa aconteceu há algumas semanas, já...


Até tinha pensado em deixar pra lá, mas esse tipo de estupidez me deixa perplexo demais, sabe...


Não é novidade que o ‘povo de deus’ vez por outra atenta pra orla dessa praia que vos redige, como você bem pode conferir visitando este link duma postagem mais antiga...



Não pretendo me deter muito tempo em cima de muitos argumentos a respeito duma fé que considera afinidade e desejo entre duas pessoas do mesmo sexo como algo pior do que uma ligação anônima (portanto, nivelada à mentira) e que, a uma senhora causa um espanto e medo enormes! Um pouco difícil acalmar a alguém simples e de hábitos caseiros depois duma ligação dessas e isso, imagino, o Espírito Santo, consolador, onipresente, onipotente, onisciente deveria saber.



‘Deveria’... Mas pra isso é necessário ser um pouco menos inútil do que o povo que o reinventa de tempos em tempos, e inútil é algo que Jesus não consegue deixar de ser...


Gostaria de deixar um recado a qualquer um que porventura leia esta nota e compartilhe dessa comunidade de adoradores do dinheiro. Este ‘servo’ que fez esta ligação... Ele é a representação máxima do cristianismo, ele é o resumo absoluto do que é um ‘servo de deus’ e da estupidez necessária a se colocar diante desse coito anal em forma de fé,que é o seu deus.



E, veja bem: isto é uma GENERALIZAÇÃO. Eu estou abertamente generalizando a qualquer um que atenda a esta fé, indiferente de concordar ou discordar do ocorrido. Este é o teu semelhante, é assim que você é, é assim que você fica. E antes que sejam soltas bostas sobre estar ofendendo até a minha mãe, me preocupo tanto, mas tanto com ela que preciso mostrar em quê o deus dela se ocupa...

Pelos frutos ainda se reconhece uma árvore, e essa invenção esquisita, essa prova de desvario moral que é jesus não se isenta disso...



Acha drástico de minha parte? Converse com o profeta de vocês que deu o telefonema.


Não dá a mínima?! Normal. Faz uma ligação anônima você também. Pede pro Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó e de “Davi, O Promíscuo” te revelar o número novo de meu telefone, igualzinho ele fez pra essa criatura do século XIX. (Silas Malafaia...?)



E, bem legal comentar, sabe quem era “o meu namorado” que viram comigo? O Douglas!
(risos, muitos risos...) ...


Triste, né? O ‘Espírito Sacana’ é tão, mas tão fajuto que eu nunca tive nada, absolutamente nada com o Douglas...

Ele nem faz meu tipo...

Augusto Miranda


...

2.12.09

Mais notas de "O Cortiço" - A Primeira vista da Pedreira...

[ Do Capítulo IV de O Cortiço – João Romão E Jerônimo avaliando a Pedreira... ]

"Aqui, Ali, por toda parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro quebravam a picareta; de outro afeiçoavam lajedos a ponta de picão; mais adiante faziam paralelepípedos a escopro e macete. E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio. Aqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, a quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito."

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“A Revolução Desconhecida” - Volin

[Quando da formação do primeiro conselho operário (‘Soviet’), e da tentativa de eleger o professor e intelectual Voline como dirigente... segue sua resposta, tão aplicável a tantas e tantas áreas da vida em sociedade...]

“Ao mesmo tempo, foi colocada uma outra questão: Quem dirigiria os trabalhos do Soviet (Conselho)? Quem seria colocado à sua direção? Os operários presentes propuseram, sem nenhuma hesitação, o meu nome.


“Muito emocionado pela sua confiança, recusei todavia a proposta com energia. Eu disse a meus amigos: ‘Vocês são operários. Vocês querem criar um organismo que deverá se ocupar dos interesses operários. Aprendam então desde o princípio a cuidar vocês mesmos dos seus negócios. Não confiem o seu destino a pessoas que não pertencem ao seu meio. Não venham escolher novos senhores: eles acabarão por dominá-los e por traí-los. Estou convencido de que no que toca as lutas e a emancipação de vocês, ninguém, exceto vocês mesmos, poderá jamais alcançar um resultado verdadeiro. Por vocês, por cima de vocês, no lugar de vocês, ninguém fará nada, nunca. Vocês devem achar o presidente, o secretário e os membros da comissão administrativa em suas próprias fileiras. Se vocês precisarem de informações, esclarecimentos, de certos conhecimentos especiais, enfim, de uma ajuda intelectual e moral baseada em uma instrução aprofundada, vocês poderão se dirigir a intelectuais, a pessoas instruídas que deverão sentir-se felizes não de vos dirigir como senhores, mas de vos trazer seu auxílio sem se meter nas questões da organização de vocês. É dever deles prestar-lhes esse concurso, pois não é por culpa de vocês que lhes falta a instrução indispensável. Esses amigos intelectuais poderão mesmo assistir às reuniões – com voz consultativa, sem mais.’"

Voline, em “A Revolução Desconhecida” – Livro 01, capítulo II
Tradução de Jaime de Almeida, em 1980
Global Editora e Distribuidora Ltda.
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1.12.09

"GADARA..." ('Legião, porque somos muitos...')

Na ilha, abarrotada de tábuas, tapumes... pregos...
constrangida pelo lixo e frustração acumulados ao longo do tempo,
mulheres e homens de globos oculares vazios e crianças amontoadas sob o sol

Avistam no horizonte, sentido centro, o céu sendo arranhado por totens
erigidos antes da fundação do bom senso...
Um louvor a um tempo de brindes e deleites
em que a má intenção e a posse vinculada ao status...
Triunfaram!
Um pouco antes do centro, como uma cortina que atenua a verdade aos da ilha
E os pemite ver da vida dos que brindam apenas o que lhes serve como bússola,
se ergue uma torre de fumaça...
"A ilha deve queimar!"...
"Tão logo abasteça aos de longe no horizonte, a ilha deve queimar!"...
A ilha logo não terá mais espaço.
Descontentamento cresce na ilha...
antes de se tornarem homens e mulheres de globos oculares vazios
haverá sangue nos olhos das crianças na ilha...
"O totem deve queimar!"
"Nosso nome é 'Legião', porque somos muitos..."
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29.11.09

Uniban: a espetacular fábrica de canalhas

Manifestação dos Alunos Uniban São Bernardo do Campo.
Escrito na placa: "A instituição é séria";
"Ela mancha a imagem de todos os alunos";
"Puta, Puta, Puta"
Uniban: a espetacular fábrica de canalhas
por Mauro Carrara, em 07 de novembro de 2009
Em anúncios publicados nos jornalões paulistas de 8 de Novembro, a Universidade Bandeirante (Uniban) anuncia que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda.
A estudante de Turismo sofreu bárbaro assédio coletivo no dia 22 de Outubro, na unidade de São Bernardo do Campo. O motivo: trajar na ocasião um vestido curto, num tom cereja.
O texto publicado pela Uniban deve converter-se imediatamente em peça de estudo para juristas, educadores, antropólogos e sociólogos.
A universidade preferiu punir a vítima e inventar uma justificativa pitoresca para o espetáculo do bullying, registrado por câmeras dos próprios alunos e vergonhosamente exposto ao mundo pelo Youtube.
Segundo os negociantes da educação, "a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
Seria cômico se não fosse trágico. A Uniban, mais uma das uniesquinas do Brasil, considera "defesa do ambiente escolar" a agitação do bando que ameaçava estuprar a colega e que a perseguiu aos gritos de "puta, puta, puta".
Alheia a valores e princípios, a Uniban pautou-se unicamente pela doutrina da preservação do lucro. Expulsou a mocinha da periferia e manteve as centenas de vândalos que a molestaram.
Defendeu, assim, a receita, a contabilidade, mesmo sob o risco de macular para sempre sua imagem.
Em "Psicologia das Multidões", Gustave Le Bon refere-se com clareza ao fenômeno da sugestão em movimentos de multidões.
Diz ele: "Os indivíduos de uma multidão que possuem uma personalidade bastante forte para resistirem à sugestão são em número tão diminuto que acabam por ser arrastados pela corrente".

Le Bon lembra que, em determinadas situações, a multidão transforma o indivíduo civilizado num bárbaro, num ser primitivo, movido pelo instinto, que vibra com o ataque ao inimigo inferiorizado.
Poucas vezes se viu isso tão claramente quanto no episódio de 22 de Outubro. Há garotas inconformadas com a sina; afinal, não têm o corpão de Geisy. Há machões conquistadores não correspondidos, movidos pelo instinto de vingança. Por fim, a turba ignara que se diverte com a perseguição, algo muito semelhante à farra do boi.
A curvilínea e voluptuosa Geisy, que concedeu entrevistas aos programas televisivos vespertinos, exibiu-se no mesmo vestido que gerou a fúria de seus colegas de universidade.
Nada formidavelmente pecaminoso como se poderia imaginar. Aliás, fosse ela mirrada e poucos notariam a ousadia de suas vestes.
Esses aspectos objetivos da questão foram ladinamente desconsiderados pela direção da universidade.
Em nome do "negócio", a Uniban preferiu investir na fabricação de canalhas.
A decisão funciona como um sinal verde para os moralistas cafajestes de todos os tipos. Esse incentivo criminoso, pois, não se limita aos clientes da instituição, mas ao conjunto dos estudantes brasileiros.
Paulo Freire, costumava advertir os educadores com a seguinte frase:
"Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito, e somente enquanto sujeito, que o homem pode realmente conhecer".
No caso em debate, a Uniban fez exatamente o contrário. Desprezou o sujeito, deseducando- o. Concomitantemente, priorizou o objeto, isto é, seu negócio, o prédio iluminado vendedor de diplomas.
Dessa forma, trocou todas as regras da civilidade por um repugnante código de carceragem.
O episódio Geisy revela a decadência do ensino universitário brasileiro, transformado em oportunidade de mercado. Essa é a herança do regime militar e dos governos conservadores que o seguiram, sobretudo aquele do privateiro Fernando Henrique Cardoso.

Ironicamente, o bajulado professor uspeano de tudo fez para esculhambar o ensino público de qualidade, entregando o sagrado ofício da educação às máfias dos certificados e aos traficantes de títulos acadêmicos.
Tempos de provação. E, como formigas, os canalhas saem aos montes dessas instituições, prontos a divinizar o pensamento neoliberal e a Lei de Gérson, seduzidos à barbárie por diversão.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mauro-carrara-uniban-a-espetacular-fabrica-de-canalhas/


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16.11.09

Honduras abala a Doutrina Monroe...

Matéria extraída da (ótima) edição de outubro da Caros Amigos (a quetem o Ferréz na capa)



Por José Arbex Jr.


A “crise de Honduras” sintetiza e ilumina um momento histórico ímparna história mundial. Pela primeira vez desde 1823, quando James Monroeformulou a doutrina que leva o seu nome (“a América para osamericanos” - quanto, de fato, tinha em mente “a América para osestadunidenses”), Washington, nitidamente, perdeu o controle e ainiciativa sobre os desenvolvimentos políticos e sociais na AméricaLatina e no Caribe.


O papel assumido pelo Brasil, nesse quadro, tem dimensão explosiva: emnome dos princípios democráticos que devem nortear a relação entre osEstados, o governo brasileiro não se limitou a “condenar” o regimegolpista, nem se contentou com sanções limitadas. Isso pode inauguraruma nova etapa na relação do Brasil com a comunidade mundial dasnações, e abrir o caminho para novos desdobramentos democráticos naAmérica Latina.


Exagero? Excesso de otimismo? Precipitação na análise política?Dificilmente. Vamos aos fatos:1. A América Latina e o Caribe tornaram-se mais importantes do quenunca para os Estados Unidos, após o fiasco no Iraque e noAfeganistão. Não “apenas” porque as reservas estratégicas de petróleoestadunidenses estão esgotadas, mas também por tudo o que representa aAmazônia em termos de reservas de petróleo, biodiversidade, minerais e água.


2. Apesar disso, Washington fracassou em todas as suas tentativasrecentes de “eliminar os obstáculos” ao seu controle da região. Nãoconseguiu tirar Hugo Chávez do poder, no golpe desferido em abril de2002; fracassou ao tentar fabricar uma guerra civil para eliminar ogoverno de Evo Morales, em 2008; e, talvez mais humilhante ainda: aotentar prolongar o acordo que permitia o funcionamento da base militarde Manta, no Equador, teve que aceitar o tapa na cara desferido porRafael Correa (o presidente equatoriano respondeu que, sim, topariarenovar o contrato, se os Estados Unidos admitissem a instalação deuma base militar equatoriana na Flórida!).


3. O golpe em Honduras se inscreve nesse quadro geral. Os golpistashondurenhos conseguiram, momentaneamente, aquilo que os demaistentaram sem sucesso. Acreditar que as oligarquias hondurenhasarquitetaram o golpe sem o conhecimento da embaixada dos EstadosUnidos é prova suprema de ingenuidade ou má fé (ou uma mistura dosdois). O embaixador estadunidense em Tegucigalpa foi colocado no cargopela turma de George Bush filho. É partidário incondicional daDoutrina Monroe. É até possível que Barack Obama tenha sido pego desurpresa, mas jamais os serviços secretos dos Estados Unidos. Emqualquer hipótese, é bastante óbvio que Washington, por mais que tenhacondenado o golpe, não ficou nada feliz com a adesão do presidentedeposto Manuel Zelaya à Alba e ao Petrocaribe.


4. Barack Obama emite sinais contraditórios e incoerentes, o que é umaprova de falta de um plano estratégico para enfrentar a situação. Oufalta de força para aplicar de forma coerente e decidida umaestratégia qualquer. De um lado, Obama proclama “o fim da era em queos Estados Unidos davam as cartas” na América Latina. De outro lado,prolonga o boicote econômico a Cuba, mantém o Plano Mérida para oMéxico e para a América Central, e o de instalações de bases militaresna Colômbia.


5. Mas Obama enfrenta uma inédita demonstração de resistência ereprovação por parte da imensa maioria dos governos latino-americanos.É nesse ponto que ganha grande relevância o papel assumido peloBrasil. Nos últimos meses, o presidente Luís Inácio Lula da Silvaemitiu claros sinais de uma “virada à esquerda” na política externa.Ao anunciar a descoberta do pré-sal, por exemplo, denunciouimediatamente os movimentos da Quarta Frota dos Estados Unidos(encarregada de “vigiar” os mares da América Latina e do Caribe),estabelecendo um nexo entre as coisas. Depois, Lula demonstroupreferência pelos aviões de guerra da França, sob alegação de que aestadunidense Boeing não transfere tecnologia. Em seguida, Lulacondenou o prolongamento do bloqueio a Cuba e declarou a intenção deinterpelar Barack Obama sobre o assunto. Finalmente, o Brasil acolheuManuel Zelaya como presidente legítimo de Honduras.


José Arbex Jr. é jornalista



Para ler o artigo completo e outras reportagens confira a edição deoutubro da revista Caros Amigos...





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